RIO - Um novo vazamento de informações secretas dos EUA feito pelo site WikiLeaks e reproduzido pela imprensa internacional nesta sexta-feira revela que as forças americanas ignoraram vários crimes no Iraque. Alguns dos quase 400 mil documentos mostram abusos e tortura em série de detidos, execuções sumárias e estupros cometidos por policiais e soldados iraquianos, sem que Washington tomasse medidas para investigar as ações criminosas. O vazamento aponta, ainda, a morte de 15 mil civis das quais não havia registro durante o conflito no país do Oriente Médio e o envolvimento do Irã no apoio a milícias iraquianas.
Conheça abaixo os principais pontos dos documentos vazados:
Abusos não punidos
As autoridades americanas falharam em investigar centenas de denúncias de abuso, tortura, estupro e assassinato pela polícia e pelo Exército do Iraque, cuja conduta, como mostram os documentos, parece ser sistemática e normalmente não ser alvo de punição.
Alguns dos arquivos contam, por exemplo, como um prisioneiro ajoelhado ao chão, com os olhos vendados e as mãos amarradas foi chutado por soldados iraquianos no pescoço. Tudo isso observado por um fuzileiro americano, que depois, ao reportar com detalhes o incidente, afirmou que "nenhuma investigação é necessária".
Esse, no entanto, parece ter sido um dos incidentes menos sádicos. Com detalhes, os documentos relatam também como, ao ser detido suspeito de preparar um ataque à bomba, um homem já rendido recebeu um tiro na perna. Depois, teve as "costelas quebradas, múltiplas lacerações e diversas marcas no corpo por ser chicoteado nas costas". Tudo foi registrado e avaliado, e a conclusão americana foi também de que não era preciso investigar o incidente.
Mortes entre civis
Mais de 15 mil civis morreram em uma série de incidentes antes desconhecidos. Os governos americano e britânico insistem em que não há registros sobre esse tipo de vítima, mas os documentos falam em 66.081 mortes de não combatentes em um total de 109 mil.
Os documentos deixam claro que a maioria dos civis foi morta por outros iraquianos. Nesse sentido, dois dos piores dias da guerra foram 31 de agosto de 2005, quando uma explosão em uma ponte de Bagdá matou mais de 950 pessoas, e 14 de agosto de 2007, quando caminhões-bomba deixou mais de 500 mortos numa área rural próximo à fronteira com a Síria.
Mas foi a violência sectária que levou os índices de mortes a seu ponto mais alto, em dezembro de 2006, o pior mês da guerra. De acordo com os arquivos secretos, 3.800 civis foram mortos. Neste mesmo mês, 1.300 policias, insurgentes e soldados da coalizão também morreram.
Irã e milícia iraquianas
Em 22 de dezembro de 2006, autoridades militares americanas em Bagdá emitiram um alerta secreto: O comandante da milícia xiita que havia orquestrado o sequestro do funcionários do Ministério de Educação Superior iraquiano planejava seqüestrar soldados americanos.
O que tornava o alerta especialmente preocupante eram relatórios de inteligência dizendo que o iraquiano, Azhar al-Dulaimi, tinha sido treinado por mestres das artes negras das operações paramilitares no Oriente Médio: a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e o Hezbollah, seu aliado libanês.
"Dulaymi teria obtido treinamento de agentes do Hezbollah perto de Qom, no Irã, sob a supervisão da Guarda Revolucionária Islâmica iraniana Corpo em julho de 2006", dizia o relatório.
Cinco meses depois, Dulaimi foi morto em um bombardeio americano a Bagdá - não antes, no entanto, de quatro soldados americanos serem seqüestrados de um quartel-general iraquiano em Kerbala e executados em uma operação militar com "as impressões digitais de Dulaimi".
Mortes em postos de controle
Um dos dossiês que vazaram relata casos de civis iraquianos mortos por soldados americanos em postos de controle, estradas e em batidas a residências.
Em geral, as mortes aconteceram porque as vítimas, muitas vezes mulheres e crianças, desrespeitaram as sinalizações e advertências dadas pelos oficiais. Os documentos minimizam as mortes, classificando-as como "escaladas de incidentes de força".
A maioria dos relatos ressalta, ainda, como os soldados seguiram fielmente as regras de conduta preestabelecidas: primeiro, sinalizar; depois, dar tiros de advertência; e, como último recurso, abrir fogo para desativar qualquer ameaça iminente.
A regra prevê a minimização de todos os riscos possíveis, através de ações preventivas extremas.Os EUA raramente admitem a morte de civis publicamente.
Insurgentes rendidos assassinados
Um helicóptero Apache dos EUA atacou e matou, em 2007, dois insurgentes que estavam no solo mesmo depois de os tripulantes terem recebido a informação de que ambos já haviam se rendido. A ordem de atacar partiu de um militar especialista em leis, que teria dito a eles que combatentes em solo não podem se render a uma aeronave.






